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O QUE ME LEVOU A CAMINHAR 19.168 Km ?

Durante muito tempo, eu procurara freneticamente obter bens materiais. Trabalhava quase 15 horas por dia, sem me importar com o cansaço, buscando a perfeição que me valorizasse mais e mais. Sempre assoberbada de trabalho, alimentava-me mal. Primeiro as obrigações!

Certo dia, veio o choque. A empresa em que trabalhava amanheceu com as portas fechadas. Depois de catorze anos supondo que a empresa fosse eterna, minha vida sofria ruptura drástica, com a qual eu não contava.

Nas semanas seguintes, virei leitora assídua de anúncios de emprego, freqüentadora incansável de entrevistas de seleção. A resposta era sempre a mesma, acachapante: minha idade superava os limites impostos pelo marcado. Com quarenta anos, era considerada muito velha para ocupar cargos da minha especialidade: diretora financeira, auditora senior ou gerente de vendas.

Pior é que não possuía registro em carteira. Trabalho informal, como dizem por aí. O correto é dizer clandestino; mas ninguém diz.

Acabei desistindo de procurar emprego. De desempregada passei a desocupada. Por isso, os amigos debandaram. Moral abalada, isolada de tudo e de todos, a depressão me assaltou e logo agudizou. Tornada por inútil, perdera o respeito da família. Cansado do meu desvalor e de minhas lamúrias, meu marido se mandou. A vida com amargura e solidão é um inferno dos diabos.

Submetia-me a sucessivas juntas médicas. Era do hospital pra casa, de casa pro hospital. Nenhum tratamento resultava. Diagnóstico: depressão profunda, “talvez” incurável. A essa altura, eu já perdera a esperança na Medicina.

Quanto mais me isolava, mais o mal se agravava. O pesadelo durava oito anos. Desesperada, tentara o suicídio três vezes. Mais três fracassos! Certamente, se nem morrer conseguia, era preciso tomar uma atitude de mudança interna, radical.
Mas como, como, como?

Foi aí que, em 1998, por sorte, caiu-me nas mãos o “Diário de um Mago”, de Paulo Coelho. Aventureira que fora outrora, afeita a desafios, senti-me tomada. Decidi, fazer, também eu!, o Caminho de Santiago, aquele mesmo de 830 quilômetros, de Compostela.

Sem nunca haver passado perto duma mochila, agarrei-me à idéia de treinar

 

 

 

com uma delas para a aventura. Logo me pus a carregar nas costas, diariamente, sete quilos de arroz, como preliminar.

Fizesse chuva ou sol, enfrentava diariamente, no Parque do Ibirapuera,  caminhadas de 12 quilômetros. Comecei por ali a fortalecer o espírito, antes derrocado pela depressão. Uma força o sacudia, fazendo-me lobrigar uma vida sem obstáculos, a possibilidade de recomeçar. Começava a esboçar um sorriso acanhado. Não falam em riso amarelo? Meu sorriso era assim.

A cada jornada, crescia a decisão de ferro: abater eu mesma o sofrimento, com meus próprios pés!

Fiz o CAMINHO DE SANTIAGO completo, vertente maior, já em 1998. Repeti o feito em 1999, 2000 e 2003, 2007 e 2009. Nesse último ano, fiz 1.210 quilômetros, sempre a pé. Em setembro e outubro de 2007, ataquei suas vertentes, os caminhos Português e Primitivo. Em ambos o nível de dificuldade é extremo. Mas as superei sempre com alegria cada vez maior.

Hoje esses quilômetros palmilhados são a minha fortaleza. Tornaram-se alicerces sólidos para meu espírito.

Nada mais me amedronta. Sair do fundo do poço, onde a escuridão sufocava, me trouxe para a luz da vida. Recuperei a autoestima. Mais que isso, aprendi a enxergar.
Pelos caminhos, passei a conhecer caminhantes do mundo todo, que tiveram problemas semelhantes ou piores dos que tive, doentes de corpo e de alma, também sarados pela poeira das estradas. Constatei que depressão é epidemia universal, que sofrer é facílimo. Não era só eu!

Aos poucos, de caminho em caminho, a cada curva, a cada lombada, fui removendo o lixo acumulado em minha mente, sentindo fluir a paz interior, voltar a alegria. Logo vi que eu tinha a força, que era capaz de conquistar o difícil, de enfrentar o imprevisível, de viver e crescer.

Aos poucos, ouvindo a mim mesma e a outros durante as caminhadas, compreendi que deveria e poderia ajudar pessoas que, como fora meu caso, precisassem de apoio, duma palavra amiga, duma orientação.

Foi assim que consegui escapulir do inferno para recomeçar a vida, sem mágoas nem rancores ou solidão, com muita vontade, pronta para ajudar. Meu lema passou a ser, parafraseando Pompeu, o general romano: VIVER É PRECISO, SOFRER NÃO É PRECISO!

Desde então me aplico em conhecer adrede, sempre a pé, os principais caminhos do País e do mundo, para, mais adiante, poder orientar com propriedade os necessitados, ou meros turistas.
Neste saite você terá notícias sobre os mais votados e de como percorre-los com segurança e prazer.

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